Um dos grandes orgulhos que um povo pode ter é o de levantar a bandeira da sua cultura. A humanidade passou por muitos processos históricos até chegarmos onde agora estamos e, nesses processos, as sociedade se destacaram e se diferenciaram por sua cultura, pelos seus traços distintivos e identitários. Em tempos de estrutura globalizante, a identidade é foco de resistência e de reconhecimento, porque os processos “globais” e capitalistas acabam levando todo mundo a se parecer um pouco (ou um muito). Digo isto, para abrir uma pequena reflexão sobre a cultura e valorização dela no nosso município de Cametá. Neste caso, quando falo de cultura estou me referindo mais especificamente à identidade e pertencimento, um binômio paradoxal porque é complementar e excludente. Complementar, pois quando nos reconhecemos com uma identidade nos sentimos pertencentes à ela, parte dela. Excludente, pois esse mesmo modelo muitas vezes não leva em conta uma variedade imensa de identidades (até exógenas) que fazem parte de uma cultura, mas que não são reconhecidas pelos discursos como parte “genética” dela, portanto não há o sentimento de pertencimento. Passo para o exemplo. Um dos eventos tópicos de nossa cidade é o carnaval, ele é um evento de identidade, mas no entanto existe carnaval em muitos outros lugares, não é algo só nosso. Neste caso, o que é nosso é a forma como a cultura popular movimenta o carnaval e suas dinâmicas específicas como o carnaval das águas, os fofós com maisena, o banguê etc. e tudo aquilo que em nós é específico e que não tem em mais nenhum outro carnaval e, se tem, é de forma diferente.
A cultura popular existe não apenas como manifestação, mas também como resistência e, neste aspecto, ela está ali onde a mão do poder público local muitas vezes não chega ou não entende. Por outro lado, a cultura popular continua existindo, financiada pela força inevitável do sentimento de identidade e pertencimento de cada pessoa.
Então, hasteando a bandeira que levantei lá no começo do texto, penso que nossa cultura, por ser identidade e pertencimento, é aquilo que nos orgulha e nos move, é aquilo que queremos não apenas viver, mas mostrar para os outros. Neste aspecto, aquilo que produzimos, por ser só nosso, é aquilo que as pessoas de fora buscam para nos conhecer melhor. Então, nada mais óbvio de que nossa cultura seja valorizada e mais, também seja trabalhada como turismo e fonte de renda para o município e para quem a produz.
Temos uma diversidade cultural linda e ela deve ser valorizada, incentivada e financiada. Nossa Mestra Iolanda do Pilão esteve recentemente no festival de cinema em Gramado, celebrando a seleção do filme documentário “Mestras”, onde sua história de vida dedicada ao samba de cacete e à cultura, é narrada. Mestre Toró estará na Feira do Livro, também representando nossa cultura. Essas representações fazem parte de caminhadas na maioria das vezes solitárias, feitas por amor e dedicação. Seu nome vem sendo a voz de muitos invisibilizados nos espaços de cultura, nos planos e nas destinações de verbas. Creio que ser pertencente à uma cultura nos obriga a conhecê-la. A máxima da canção que diz “o que é bom vem de fora” é válida para pensar sobre nós mesmos, sobre valorização daquilo que nos pertence. Se não agimos na nossa cultura, dificilmente vamos valorizá-la, vamos ver só o que é de fora, o que é de massa como algo a ser buscado, como algo bom. Essa é uma estrutura de pensamento colonial. Como cidadãos do mundo, somos levados a querer conhecer tudo, saber sobre tudo que existe, isso é inevitável, porque é busca de conhecimento, mas diante do mundo, precisamos nos conhecer primeiro.

Precisamos inserir a cultura nos planos de governo, trazendo à frente da responsabilidade pessoas que tenham conhecimento da área, que tenham amor à sua cultura e que sejam competentes nesse meio, precisamos que os agentes e fazedores de cultura sejam sempre lembrados. Há editais de fomento, há caminhos de financiamento para toda essa diversidade que temos. Nossas manifestações de cultura não estão nas escolas, não estão nos espaços de privilégio, mas ainda sim continuam sendo aquilo que somos. Quando se pensa em Cametá, o que vem à mente? Carnaval, pesca do mapará, samba de cacete, siriá, isto é, tudo aquilo que em cerne faz parte da nossa identidade cultural e, ainda sim, por exemplo, não temos uma secretaria de cultura exclusiva. Entendo que trata-se apenas de uma consequência da estrutura de poder que temos há tempos e que isso não se transforma do dia pra noite. É ainda um campo de batalha com algumas vitórias (Instalação do conselho de Cultura, FUNCULT), que esperamos sejam fortes e duradouras e levem os fazedores de cultura e suas vozes para os espaços de decisão.
Ainda nos falta um orgulho que nos leve à ação, à buscar participação no meio cultural, apoiar nossos mestres, artistas, agentes de cultura. A gente ainda precisa se conhecer.
Viva, Mestra Iolanda do Pilão!
Viva, o samba de cacete!
Viva, todos fazedores de cultura!
Viva, a cultura popular!