Terça, 27 de Outubro de 2026
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Estudo aponta dados sobre consumo de drogas no Brasil

O estudo indica que 5,38% da população brasileira (14 anos ou mais) já fez uso de cocaína (aspirada) em algum momento da vida.

Redação
Por: Redação Fonte: Agência Dino
03/02/2026 às 17h57
Estudo aponta dados sobre consumo de drogas no Brasil
Canva

Em estudo divulgado, o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III, Caderno Temático, UNIFESP, 2025) apresenta um panorama atualizado sobre o consumo dessas substâncias no país, com base em levantamento domiciliar de abrangência nacional por amostragem probabilística estratificada em múltiplos estágios, com autopreenchimento sigiloso para maior acurácia em temas sensíveis. O estudo refere-se à população brasileira residente em domicílios particulares permanentes com 14 anos ou mais.

Segundo os dados, o estudo indica que 5,38% da população brasileira (14 anos ou mais) já fez uso de cocaína (aspirada) em algum momento da vida (IC95%: 4,65%-6,21%), o que representa aproximadamente 9,3 milhões de pessoas. O uso recente de cocaína (nos 12 meses anteriores à pesquisa, refletindo 2022) foi identificado em 1,78% da população (IC95%: 1,38%-2,30%), equivalente a cerca de 3 milhões de brasileiros. Houve aumento estatisticamente significativo no uso na vida em relação ao LENAD II (2012: 3,88%), mas estabilidade no uso recente (1,77% em 2012). O indicador retrospectivo de uso no ano anterior à pandemia (2019-março/2020) foi de 2,20% (sem diferença significativa).

O relatório informa que o consumo é mais frequente entre homens (8,14% na vida; 3,00% recente) do que mulheres (2,77%; 0,63%). A faixa etária de maior prevalência é 25-49 anos (7,98% na vida; 2,80% recente), com pico nessa faixa. O consumo apresenta gradiente inverso com escolaridade (maior em níveis mais baixos) e está associado a fatores de vulnerabilidade social. Variações regionais existem, com maiores prevalências em áreas urbanas e diferenças por região (Centro-Oeste frequentemente mais elevada).

Sobre o assunto, Danilo Piola, CEO da Clínica para Dependentes Químicos Clínicas Vitale, afirmou que os dados do LENAD III revelam um padrão preocupante de expansão silenciosa do contato com cocaína. "O aumento no uso na vida (de 3,88% para 5,38%) ao lado da estabilidade no uso recente (1,78%) indica que mais brasileiros estão experimentando a substância, especialmente homens entre 25 e 49 anos, mas as estratégias atuais podem não estar conseguindo impedir a progressão para uso regular. Isso reforça a urgência de investir em prevenção primária robusta voltada para adultos jovens e em políticas que atuem na redução da vulnerabilidade social, antes que o uso se cronifique", avalia.

Em relação ao crack, o relatório aponta prevalência de 1,39% na vida (estável em relação a 2012: ~1,4%), correspondendo a aproximadamente 2,4 milhões de pessoas. O consumo recente foi estimado em 0,48% (IC95%: 0,32%-0,72%), mantendo-se em níveis baixos na população geral e restrito a grupos mais vulneráveis (ligeira redução vs. 0,64% em 2012, sem significância estatística). O uso é significativamente mais frequente entre homens (2,21% na vida; 0,88% recente) e adultos (1,49% na vida; 0,51% recente), sendo raro entre adolescentes (0,35%; 0,15%). O início de uso tende a ser mais tardio (adulto) em comparação à cocaína aspirada.

O estudo destaca que o uso de crack está fortemente associado a situações de vulnerabilidade social, como baixa escolaridade (até 7,17% na vida entre iletrados/não escolarizados), desemprego, situação de rua, divórcio/separação e exclusão social, com gradiente inverso claro de escolaridade. Usuários de cocaína e crack apresentam maior risco de transtornos mentais, dependência (rastreada por SDS e ASSIST), doenças cardiovasculares, respiratórias, infecciosas, busca por serviços de emergência e internações. O relatório ressalta a associação com aumento de demanda por atenção psicossocial.

Por fim, o LENAD III reforça a importância de políticas públicas baseadas em evidências, com foco em prevenção, tratamento, redução de danos e abordagens diferenciadas para cocaína e crack, considerando seus perfis distintos. O estudo subsidia estratégias integradas nas áreas de saúde, assistência social e segurança pública, destacando a necessidade de continuidade na vigilância epidemiológica (intervalo de 11 anos entre edições limita inferência de tendências lineares) e inclusão de populações vulneráveis sub-representadas em inquéritos domiciliares (ex.: situação de rua).

Perguntado sobre o estudo, Danilo Piola disse que na unidade da Clínica de Recuperação em Cuiabá, Mato Grosso, acontecem atendimentos diários de casos graves de dependência, onde é possível observar na prática, os impactos revelados pelo relatório: transtornos mentais, comorbidades físicas e dificuldade de reinserção. "É urgente avançar com políticas públicas integradas de prevenção, tratamento acessível e redução de danos, além de garantir a continuidade de levantamentos nacionais como o LENAD. Somente com ações coordenadas entre saúde, assistência social e segurança pública conseguiremos reduzir o sofrimento de milhares de famílias brasileiras".

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