
Falar de cultura é falar de todas as suas especificidades e dentre elas aquelas mais polêmicas como a do “som alto” ou, como eu gosto de chamar: “do barulho”. Já começo explicando que o som é uma percepção sensorial e o ruído (barulho) é visto como sendo um som indesejado. Sem querer entrar no mérito da questão sobre gosto, sabemos que existe uma lei de perturbação do sossego (Decreto-Lei nº 3.688/41) e também o Artigo nº 54 da Lei Ambiental (Lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998), que trata da poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana, inclusive a poluição sonora. Dito isto, não importa que tipo de som seja, se ele passa de uma medida de 50 decibeis ele te incomoda e ele passa a ser barulho. E qual a relação disso com a cultura? É que nós vivemos em Cametá uma cultura do som alto ou cultura do barulho. É carro som pelas ruas, é som alto na frente da casa, é carretinha, é paredão, são festas que viram noites com som alto. A música alta tem forte impacto na sensação de prazer, é explicável tudo que ela pode causar àqueles que estão naquela “vibe”. No entanto, nenhuma forma de prazer deveria estar acima da lei, porque por outro lado o som alto também é prejudicial à audição. Mas falando de cultura, observamos uma tendência cada vez mais forte que é a de ouvir música com som “no talo”. Essa prática, ainda que seja uma contravenção, está no dia a dia de nossa população e, o que deveria ser uma prática individual (daí o uso de fones e headphones), passa a ser uma música alta que “obriga” todo um entorno a ouvir. Há, é claro, nessa prática, uma falta de senso de comunidade e de empAitia com o próximo, mas há também o desejo de ser notado, de ser visto ou, como diz o outro, de “se aparecer”. Não preciso dizer que, em geral, (observe) a maioria dos infratores são homens. Eu acabo repetindo algumas vezes “quanto mais alto o volume, mais frágil é a masculinidade”. Porque, em geral, me parece ser uma ação de algum tipo de afirmação de masculinidade, sei lá, que digam os psicólogos. É cada vez mais comum a gente olhar para uma rodada de pessoas em torno de uma fonte de som muito alta, aquelas pessoas estão ali, juntas, mas ninguém conversa, ninguém troca ideia…é também um lugar de escape, de isolamento e de nada a dizer sobre o mundo ou sobre a vida.
Outro dia li uma matéria sobre uma “rave silenciosa”. O conceito é o seguinte, é uma festa rave como qualquer outra, só que a fonte de som só pode ser acessada por fones de ouvido via bluetooth. Então se você chega nesse ambiente sem seu fone, não vai ouvir a música que está rolando. É um conceito e também uma forma de integração.

Há em nosso município um abuso em relação ao som alto, seja ele qual for, fica cada dia mais difícil curtir um som da natureza, porque acreditem ou não, ainda existe gente que gosta do som da natureza. Eu fico pensando no que está se tornando às margens do Cupijó, por exemplo, vários balneários, todos com música alta, e às vezes um na frente do outro. Impossível. Quando se fala em direito à cidade, também se pensa quantos cidadãos, como autistas por exemplo, não são afetados com o som do vizinho, da festa ao lado, do carro som? A cultura deve ser um espaço de integração e inclusão, não essa loucura desrespeitosa e criminosa que acontece na beira do olho da Secretaria de meio Ambiente, da PM, da Prefeitura. Precisamos de canais de denúncia (não temos, pode ligar para a SEMMA) e precisamos de fiscalização, que infelizmente também não temos.
A gente espera sempre viver num espaço mais harmonioso, respeitoso e inclusivo. Vamos ouvir música, mas vamos respeitar o próximo.