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Mais uma cuia

Isabel tacacazeira e a cultura alimentar

Carlos Dias Júnior
Por: Carlos Dias Júnior
11/09/2024 às 23h40 Atualizada em 12/09/2024 às 00h03
Mais uma cuia
Dona Isabel. Fonte: página pessoal da família

Das memórias afetivas mais fortes que eu tenho a maioria é de comida. Das comidas que minha avó fazia e das cuias de tacacá da Dona Isabel. Éramos vizinhos de quintal, a minha avó também se chamava Isabel, éramos separados por uma cerca. Seus filhos, meus amigos de infância. Frequentei muito sua casa e sempre era agraciado com um bolinho de macaxeira feito na hora ou com as primeiras cuias de tacacá antes dela sair para vender na praça das Mercês. Ainda tinha um sistema de escambo que eu fazia com ela, levava jambu do quintal de casa e trocava com uma cuia de tacacá. Lembro das tardes em que a brincadeira era ajudar o meu amigo Léo, um de seus filhos, a descascar macaxeira para os bolinhos. Era diversão com o pagamento em tacacá. 

 

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A sabedoria da feitura dos bolinhos e do tacacá ela herdou da mãe, assim como muitas Tacacazeiras de nosso município. Elas, como guardiãs de nossa cultura alimentar, levaram pra frente uma tradição e alimentaram suas familias com essa profissão. E a Dona Isabel carregou por muito tempo o título de melhor Tacacazeira de Cametá. Naquela esquina da praça das Mercês as cuias fumegantes embalaram muitos e intermináveis papos. Sem contar todos os tacacás consumidos no itinerário de sua casa até seu ponto. 

 

Dona Isabel nos deixou. Ficou pra mim a imagem de mulher forte, lutadora e trabalhadora, que apenas a doença era capaz de mudar o seu ato cotidiano de ir vender seu tacacá. 

“Dona Isabel, coloque um pouco mais de tucupi”, talvez tenha sido essa a frase que ela mais tenha ouvido de mim, só pra matar aquele restinho de goma no final. 

Hoje, nos deixou parte desse patrimônio cultural alimentar, que tanto nos constitui como amazônicos, que tanto diz sobre nós. Digo isso porque sei que esse patrimônio não está na comida em si, mas nas pessoas que a produzem, que transformam seus conhecimentos e sabedorias e naqueles que a consomem e congregam em torno dela. Como as pessoas em torno do carrinho da Dona Isabel, conversando congregando em volta de cuias de tacacá. Essa é uma cena típica nossa, muitas vezes despercebida porque é banal pra gente, mas precisamos dela para congregar e alimentar. Espero que a memória da Dona Isabel e de nossas Tacacazeiras se perpetue na nossa comunidade, não apenas como lembrança mas como ensinamento e sabedoria sobre nossa cultura alimentar. Aliás, esses são os notáveis de nossa cultura, aqueles que trabalham o chão e que elevam nossa identidade e sabedoria.

Quando perdemos pessoas tão importantes para nossa cultura, ficamos ali pensando que seria sempre bom poder tê-los um pouco mais conosco, que seria bom poder pedir mais um pouco de tucupi na nossa cuia. 

Vá em paz, Dona Isabel Cardoso, Dona Isabel Tacacazeira…minha vizinha. 

 







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