História História, Cultura
NAVIOS AFUNDADOS NA FRENTE DE CAMETÁ
A Luta contra a Erosão
26/09/2024 18h17 Atualizada há 2 anos
Por: Arodinei Gaia

NAVIOS AFUNDADOS NA FRENTE DE CAMETÁ:

A Luta contra a Erosão

Por: Eliel Pompeu Rodrigues¹

Arodinei Gaia de Sousa²

 

Cametá, carinhosamente conhecida como a “Pérola do Tocantins”, enfrenta um desafio ambiental que remonta à sua fundação no século XVII: a erosão do Rio Tocantins. Este fenômeno natural tem ameaçado não apenas a integridade da orla da cidade, mas também seu rico patrimônio histórico. Em resposta a essa adversidade, a cidade adotou uma solução inovadora e emblemática: o afundamento de navios como barreiras naturais para proteger suas margens.

A luta contra a erosão é histórica e dispendiosa. Já em 1870 se constata essa preocupação, pois ainda no governo de D. Pedro II, iniciou-se a construção do cais de arrimo na orla da cidade.  Mais recentemente, na década de 1980, houve outra tentativa com a famosa draga trazida para Cametá que, por um sistema de tubulação, sugava areia da praia do outro lado do rio para a frente da cidade.

Draga

 

Sobre a tentativa com os navios, a história desse esforço começa em 1940, durante a gestão do prefeito Nelson Parijós, quando o primeiro navio, o Perseverança, foi submerso nas águas do Tocantins em frente a feira municipal. Esta iniciativa pioneira visava mitigar os efeitos da erosão e criar uma defesa natural contra as águas invasivas. O afundamento do Perseverança estabeleceu um precedente que seria seguido por outros navios ao longo das décadas.

Na década de 1980, a estratégia foi ampliada com o afundamento do Taubaté, localizado nas proximidades da extinta Clínica Municipal Ângelo Correa, em frente da Capelinha de Bom Jesus dos Aflitos. Em 1990, foi a vez do Landetou (quase em frente ao Porto da Boa Esperança), seguido pelo lendário Poraquê em 1991 e, por último, o Roraima em 2001 (ambos no cais de Cametá com partes deles ainda aparentes na superfície). Cada um desses navios carrega consigo não apenas aço e madeira, mas também histórias ricas que se entrelaçam com a própria narrativa de Cametá.


Navio Perseverança

O Poraquê, por exemplo, não é apenas um navio; é um pedaço da história marítima. Construído e inaugurado em um afluente do Rio Mississipi em 1943, nos Estados Unidos, o Poraquê teve um papel significativo durante a Segunda Guerra Mundial. Contudo, na década de 1970, seu uso já se tornava obsoleto. Com 109,10 metros de comprimento e 15,24 metros de largura, deslocando impressionantes 5.500 toneladas, o Poraquê foi finalmente doado à cidade de Cametá através do decreto 8.286/1991. Seu afundamento foi uma decisão estratégica para preservar as igrejas e outros monumentos históricos que adornam a orla da cidade.

 
Navio Poraquê

                                                                                                                                                                                                                                                                            

O Taubaté, que está localizado quase em frente da conhecida capelinha, virou até ponto turístico, pois a proa que, na hora do afundamento, se recusou a mergulhar no Tocantins, acabou criando um aspecto misterioso, sinistro. Quem vem a Cametá observa de longe a imponente proa apontando para o céu cametaense. Para alguns causa até medo, para outros admiração, e não falta quem vá até ele fazer um registro fotográfico, principalmente agora com a reinauguração da histórica capelinha. São dois gigantes históricos, um na margem outro no rio, que encantam qualquer turista.


A Capelinha e o Navio Taubaté

Antes dos navios serem submersos, cuidados especiais foram tomados para preservar partes históricas das embarcações; elementos como o leme e o sino foram retirados para garantir que a memória desses barcos fosse mantida viva.

A intenção por trás dessa ação implementada com os navios, era criar uma barreira subaquática que elevasse o nível das águas e afastasse as correntes erosivas da orla, proporcionando assim uma proteção efetiva para os tesouros históricos da cidade.

A narrativa dos navios afundados em frente à cidade é mais do que uma simples estratégia contra a erosão; é um testemunho da resiliência de Cametá diante das adversidades naturais. Esses navios agora descansam no leito do Tocantins como sentinelas silenciosas, protegendo um legado cultural e histórico que merece ser preservado para as futuras gerações.

É válido destacar, que os navios afundados exerceram um efeito positivo na luta contra a erosão da frente da cidade. Inclusive, na área que vai da imediação da catedral de São João Batista até a frente da Igreja de são Benedito é possível observar a formação de praias rente ao cais, o que nos permite concluir que a frente está mais segura com essa barreira branca e a barreira de ferro.

 A bem da verdade, contrariando as explicações científicas, o processo de queda da frente da cidade virou lenda, pois há os que acreditam ser, o infortúnio, obra de seres do fundão como o lendário tatú açú, aramaçá gigante, cobra grande, entre outros. O fato é que o elemento lendário é um prato cheio para artistas de vários gêneros como pintores, poetas, compositores e até carnavalescos que já se apropriaram da explicação mitológica para explorar em suas artes.

Lenda ou não, o certo é que a luta contra a erosão continua, mas com cada navio afundado, Cametá reafirma seu compromisso com sua história e seu futuro.

¹Pedagogo, Sociólogo, especialista em história brasileira afro-indígena e mestrando em Educação, professor da rede pública municipal de Cametá.

²Historiador, Pedagogo, Escritor, Poeta, Mestre em Ciência da Educação. Professor na rede estadual do Estado do Pará.

Fontes:

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