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BELOS PRAZERES

Tradição, turismo, lazer e devoção

Arodinei Gaia
Por: Arodinei Gaia
05/11/2024 às 10h58 Atualizada em 05/11/2024 às 11h58
BELOS PRAZERES

BELOS PRAZERES: tradição, turismo, lazer e devoção

Por: AroDinei Gaia 

            A vila de Belos Prazeres é um paraíso amazônida que está ‘escondido’ na mata cametaense no distrito de Curuçambaba, fronteira com Igarapé Miri à margem direita do rio Tocantins em Cametá. O povoado é um encanto centenário que aos poucos vem sendo descoberto pelo turismo.

            Banhado pelo exótico Rio Cají, o vilarejo é um belíssimo lugar onde se encontra, ao mesmo tempo, a vida moderna e beleza natural acasalando com a tradição. Sobre o rio há uma ponte que permite atravessar de Cametá para Igarapé Miri. O rio é a rua que separa as duas municipalidades. No meio da ponte é possível você colocar um pé no território de Cametá e outro em Igarapé Miri.  

            O nome “Belos Prazeres” já sugere a inegável exuberante beleza que enchem os olhos de qualquer viajante. Um povoado provinciano, uma praia de areia branca, um rio com água central fria e convidativa, onde se ouve o canto dos pássaros e onde residem pessoas que cultivam a terra assim como cultivam a política da boa vizinhança, da boa acolhida aos que vêm de fora. Gentileza e beleza que atraem cada vez mais visitantes.

            O Belos Prazeres ‘nem sempre foi belo’. Explicando o trocadilho, quando o povoado surgiu, por volta do final do século XIX era conhecido, simplesmente, como Vila Martins, pois “os martinzadas’ como se diz por aqui, foram os primeiros moradores que vieram sob a tutela de Bernadino Martins, o patriarca da família. Depois somaram-se outras famílias como Pureza, Freitas, Aquino, etc. São essas famílias que vão gerar um modo de vida comunitário, coletivo diferente do que normalmente se ver, pois na antiga Vila Martins até a posse da terra ganhava outra versão, uma vez que a propriedade privada não fazia parte do cotidiano. Quando lá estive como pesquisador, sempre que perguntava por que ninguém era dono da terra, logo vinha a resposta: Porque a terra é da Irmandade, pertence ao santo, assim cada morador tem a posse da residência, mas não do terreno onde esta foi construída, pois a terra, por tradição, pertence ao orago São Sebastião.

            Em Belos Prazeres, portanto, não se compra terreno para morar, este é doado pela coordenação da irmandade ao pretendente, porém não sem antes este passar por um criterioso processo de aceitação por parte da comunidade. Ou seja, a pessoa deve ser de “boa fé” ou melhor boa índole para residir no vilarejo. Sempre foi assim desde o inicio da fundação da Irmandade e permanece até hoje. A posse coletiva da terra é prevista pelo Estatuto que rege o funcionamento da vida social no povoado.

            A devoção, é outro aspecto ímpar do lugar. Belos Prazeres é um dos poucos lugares que ainda possui uma Irmandade em pleno funcionamento. Para quem não conhece, as Irmandades, nascidas no período medieval, eram as associações que promoviam as festas de padroeiros antes da chegada das Comunidades (C.Cs) no final dos anos de 1960. Com a implantação das Comunidades as Irmandades foram perecendo, mas no Belos Prazeres houve resistência e assim as duas associações religiosas passaram a co-existir, a comunidade cuidando a vida espiritual e a irmandade da administração do lugar.

            A festividade do padroeiro São Sebastião que ocorre no mês de janeiro, é outro atrativo para os turistas que visitam a localidade em busca de diversão, devoção, encontro e o espetacular banho no rio Cají. A festividade é centenária, começou com um santo feito de um tronco de taperebazeiro e ocorria depois dos convidados - costume tradicional do trabalhador rural - onde os moradores se reuniam pedindo boas colheitas ao som do samba de cacete e banguê. Até que uma senhora por nome Clara de Freitas trouxe um São Sebastião e deixou no povoado, originando a partir daí a Irmandade de São Sebastião.

Em outros tempos o festejo era ao som dos grupos de jazz ou grupo de pau e corda como o famoso Mulatinho, antigo grupo do lugar, a festa era regada a tradição e restrito aos convidados dos membros da confraria e também só podia dançar se tivesse vestido com paletó e gravata. Na madrugada havia a mucura (alvorada), no final da festa o tedel (varrição) tudo regado a banquete de carne de porco e bebendo gengibirra ou cachaça que ficava na frasqueira para todos lá no canto do salão. Hoje, muita coisa mudou, porém, a diversão continua sendo a mesma.

A Irmandade, por orientação da Igreja católica, não foi permitido mais continuar existindo por isso transformou-se na Associação de Filhos e Amigos de Belos Prazeres com função semelhante a tradicional confraria.

  

Na antiga Vila Martins, o turista, pode ainda fazer um tour conhecendo outros locais interessantes que enchem os olhos com a rica simplicidade interiorana, como o poético Campo das Rosas, o Espacinho e o Porto Tapera da Ponta, local onde os Cabanos teriam deixado um pouco de sua história. Haja energia!!

A economia é diversificada e grande parte baseada na terra, isto é, na produção rural. Ai tem um fato interessante. É que os moradores residem em Cametá, mas trabalham em Igarapé Miri, pois as casas ficam do lado que pertence ao município cametaense porém a área produtiva, em sua maior parte, fica atravessando a ponte do lado do município de Igarpé Miri. A vila ainda conta com vários comércios, posto de saúde e escola de ensino Fundamental onde também funciona o Ensino Médio que proporciona aos filhos dos trabalhadores formação e preparação para as universidades através do ensino presencial Sistema Modular implantada lá desde o ano de 2004.

            Portanto, Belos Prazeres é um prato cheio para os turistas que gostam de diversão, apreciam a tradição e saboreiam uma boa história, sentado a boca da noite na grama verde ou na areia branca que margeiam o brioso Rio Cají.

Essa e outras histórias do povoado estão no livro Irmandade Leiga na Amazônia: os irmãos devotos de São Sebastião de Belos Prazeres, que foi meu primeiro livro lançado no ano de 2012 e que tem a antiga Vila Martins como cenário da obra.

Visite Belos Prazeres em Cametá!!

 Arodinei Gaia de Sousa

  Escritor/Historiador

                                                                                                

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