Cultura Fumaça em Cametá
Crônica da fumaça anunciada
Cametá sufocada
17/11/2024 10h00 Atualizada há 2 anos
Por: Carlos Dias Júnior

Este é o tipo de texto que quero que seja anacrônico em pouco tempo. Em termos, ele é uma crônica de dias em que Cametá se embuça numa longa cortina de fumaça. Todos os dias, ao acordar, achamos ver névoa, brumas, mas quando sentimos o ardor nos olhos, sabemos que é fumaça, que é queima. Não, os olhos não se acostumam, a garganta não se acostuma…sucumbimos aos poucos aos seus efeitos, não sabemos ser a sociedade do monóxido de carbono. A chuva redentora e suas gotas lenitivas parece ter nos abandonado definitivamente. Não sabemos pra onde ela foi, não sabemos fazer a dança da chuva, estávamos muito ocupados nos desenvolvendo. Esse Vesúvio que nos aflige, ainda nos dá tempo para refletir. 

Nós nos embriagmos com a fumaça do nosso próprio descaso, cheiramos o incenso terrível do nosso próprio lixo e recebemos o spoiler da nossa destruição. Essa fumaça pode ser o nosso sudário. O que fazemos? Talvez essa seja a pergunta pro momento, porque queremos respirar, queremos ver o sol, a lua…mas a verdadeira pergunta deveria ser “o quê fizemos?” Ou “o que faremos?”. Não chegamos aqui por causa do homem mau que atea fogo (Neros do agro), pela combustão espontânea ou por castigo divino. Chegamos aqui porque escolhemos um modelo de desenvolvimento não sustentável, porque não fomos capazes de frear a sanha do capital em queimar nossas terras. Não fizemos o acero contra a ignorância. Esquecemos de viver em harmonia com a natureza. Não escutamos os animais, não conhecemos as plantas.

Hoje estamos intoxicados, amanhã estaremos carbonizados sobre a arqueologia das nossas consciências.