
A vila de Juaba é conhecida pela sua tradição cultural, sendo inclusive, uma das vilas que mais contribuem para o reconhecimento de Cametá pelo seu potencial cultural diversificado. Pois bem, é o Juaba que presenteia a cultura cametaense com o seu Leocádio ou simplesmente Mestre Loló, mais um personagem que justifica o título de Cametá como terra de rica cultura.
O nome Leocádio talvez não diga muita coisa, mas ao se mencionar que ele era um dos membros do conhecido grupo musical Engole Cobra, a figura do mestre se auto revela. Mestre Loló formou a dupla de voz juntamente com mestre Arquimedes Vital Batista que tanto encantou o público com suas inusitadas canções, ele era a segunda voz que dava base para o mestre Vital.
Leocádio José Rodrigues Tavares, nome gravado em sua certidão, nasceu no Juaba em 07 de julho de 1936 e lá passou toda sua vida. Filho de agricultores, seguiu a mesma profissão para sustentar a família. Além da lavoura da farinha, outras ocupações estão na história do músico, como o trabalho como diarista e a prática de catar acarí no buraco e concha no fundo, o que gerava algum trocado. Estudou pouco, até o antigo terceiro livro de Dr. Freitas e com um paleógrafo emprestado de um amigo de seu pai, aprendeu aquela interessante técnica da escrita.
O pai, conhecido como seu José Jacaré, morreu cedo aos 42 anos e Leocádio, único filho, foi obrigado a assumir a gerência familiar e trabalhar duro para cuidar da mãe viúva dona Ermira Rodrigues e de cinco irmãs. E só após casar todas as irmãs é que se deu a liberdade de, também constituir matrimônio, casando aos 36 anos com dona Ana Veiga Tavares, com quem vive até hoje, aos 88 anos, no torrão juabense. Assim, tiveram juntos quatro filhas e um filho (Eloíza, Feliciana, Leliane, Nazaré e José Antônio).
Algumas filhas herdaram do pai o soneto cultural, como Nazaré que por vezes tocou no grupo Engole Cobra substituindo algum músico e Feliciana ou Félis que é organizadora e brincante do famoso Cordão da Bicharada do Mestre Zenóbio. Loló, também participou de cordão de boi no grupo Campinense.
O contato com a arte de seu Leocádio se deu desde muito cedo, pois seu pai fora integrante do tradicional Bambaê do Rosário onde tocava a onça, instrumento musical característico de Cametá que produz som grave, como se fosse um contrabaixo, era muito usado em grupo de banguê. O garoto admirava o genitor a manusear tal instrumento e nas noites de ensaios e apresentações o acompanhava e assim foi aprendendo, apenas olhando. Quando o pai faleceu, Leocádio, com cerca de 18 anos, assumiu o posto cantando e tocando o singular e rústico instrumento. E foi justamente o Bambaê do Rosário que o levou a integrar o grupo Engole Cobra.
Ocorreu que o músico que tocava a onça no Engole Cobra faleceu, e mestre Arquimedes, certa vez, assistindo uma apresentação do Bambaê impressionou-se com a desenvoltura de Leocádio e o convidou a vir compor o grupo. Era início dos anos 2000 quando se formou a dupla mais marcante e emblemática formada por Mestre Vital Batista na guitarra e bandorra e Mestre Loló na onça, além de dois filhos do líder do grupo no bumbo e reco-reco.
Os dois mestres também eram os cantores do grupo, formando uma dupla que encantou o público com suas músicas irreverentes e de forte crítica político-social, compostas, engenhosamente, pelo líder da banda Mestre Vital Batista.
Nesse período, o Engole Cobra ganhou fama, venceu a fronteira cametaense, se apresentou em vários municípios paraenses e, principalmente na capital, virou tema de trabalhos acadêmicos e passou a ser visitado, constantemente, por pesquisadores e jornalistas. Foi nesse período ainda que os músicos gravaram seus CDs, todos no Estúdio do produtor musical cametaense Chico Moraes e essas canções ganharam o Brasil.
O fim da banda se deu quando o filho de mestre Vital, que tocava o reco-reco, morreu inesperadamente. O incidente trágico, afetou todos do grupo e foi como um tiro certeiro no mestre. As composições cessaram e junto faleceu a vontade de continuar as apresentações. Os dois mestres conversaram e decidiram por encerrar as atividades e desde daí, o grupo Engole Cobra passou a se apresentar, apenas esporadicamente, em alguns eventos como o Festival Cultural Juabense.
Nas apresentações Loló era, caprichosamente, maquiado pelo mestre amigo Vital Batista, que tinha a incumbência de pintar a todos e depois a si próprio e as suas roupas alegóricas de cores fortes, característico do grupo, eram fabricadas pela esposa do Mestre Loló, dona Ana Veiga.
Após o Engole Cobra encerrar a atividade, mestre Loló continuou atuando no religioso Bambaê do Rosário, pelo menos até a pandemia, quando a saúde e a voz cansada não permitiram mais que o velho artista continuasse sua missão musical.
Hoje, Mestre Loló, continua residindo na vila de Juaba e guarda na lembrança o tempo em que gozava de saúde sólida e mantinha uma vida artística movimentada. Mestre Vital Batista, sempre que vai à vila visita o velho amigo e tomando um saboroso café relembram os tempos em que socializavam o palco.
Mestre Loló guarda na lembrança essa e muitas outras histórias.
