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A CABANAGEM EM BAIÃO

Camila Favacho
Por: Camila Favacho
11/08/2024 às 18h09
A CABANAGEM EM BAIÃO
Fonte: Camila Favacho

Por muitos anos ouvi sobre a história de um Padre que havia sido morto pelos cabanos, em Baião. A história era vaga e quase nenhum detalhe se conhecia sobre os fatos que se desenrolaram em solo baionense. Livros, artigos e revistas trazem pouco destaque sobre o movimento cabano em outras cidades no Pará, quase como se tal movimento nunca tivesse ocorrido, alienando a população acerca de uma das maiores insurreições sociais do Brasil.

Alguns anos antes de estourar o movimento Cabano, um grupo liderado pelo “famigerado” Jacob Patacho e seu braço direito Saraiva, ganhou fama na Província do Pará. Segundo o centro dominante da história, eles espalhavam o pânico na sociedade e levavam medo e terror ao coração de todos aqueles que tinham a infelicidade de cruzar o seu caminho. Leitura obrigatória nos meus tempos de vestibular, “A Quadrilha de Jacó Patacho”, foi imortalizada nas palavras de Inglês de Souza por suas terríveis façanhas, principalmente contra os portugueses residentes no Grão-Pará.

Como consequência das minhas pesquisas e curiosidades sobre a história de Baião, encontrei fontes que forneciam informações preciosas sobre o período da Cabanagem em território baionense, até então uma novidade, pois o centro das pesquisas e debates sempre foram os acontecimentos ocorridos em Belém e arredores.

A partir desse momento, curioso leitor, me acompanhe nessa incrível história cabana acontecida em Baião: Em dezembro de 1832, o Juiz de paz de Baião, João Ferreira, recebeu a notícia de que o bando de Jacob Patacho navegava rio Tocantins acima e estava na iminência de chegar em território baionense. A noticia se espalhou rapidamente, o pânico se instalou e dezenas de pessoas se amontoaram na residência do vigário Francisco Gonçalves Martins e Pontes.

Após muita conversa, ele conseguiu acalmar a multidão, que já traçava planos para esconder seus pertences caso o bando subisse até a vila. O vigário reuniu um grupo de homens e os muniu de armas e cordas, com a intenção de capturar os integrantes do magote antes de chegarem até a “cidade”, inclusive, investindo recursos do próprio bolso na empreitada que se avizinhava.

Essa primeira batalha, travada nas águas do rio Tocantins, resultou na vitória do Padre e a destruição dos planos dos “cangaceiros das águas”, impedidos de alcançarem seus comparsas, que os aguardavam rio acima. Durante o combate, cinco morreram e outros foram presos, inclusive Saraiva. Jacob Patacho e mais duas mulheres escaparam por terra, sendo capturados e presos no Arsenal de Guerra,meses depois, em Belém.

O êxito na batalha alçou a figura do Padre à condição de herói e liderança natural de Baião e, como reconhecimento pelo seu feito, em outubro de 1833, assumiu a condição de primeiro Presidente da Câmara da recém criada Nova Vila de Santo Antônio do Tocantins (Baião), posto esse que seria ocupado várias vezes, no futuro, por duas figuras conhecidas dos baionenses, os Coronéis Seixas, pai e filho.

Passados aproximadamente dois anos desde sua vitória e posse como Presidente da Câmara, o vigário gozava de prestígio em toda a Província e boa condição financeira. Enquanto isso, o movimento cabano começou a ganhar forças com a ocupação de Belém.

Jacob Patacho e seu bando foram resgatados e libertados da prisão pelos cabanos. Rapidamente a noticia se espalhou pelos lugares mais longínquos do Pará, e receoso de uma possível vingança por parte do bando, o vigário de Baião decide abandonar a Vila rumo ao Maranhão, levando todos os bens que podia consigo e deixando para trás a vila e sua velha mãe, aos cuidados do Juiz de Paz, João Ferreira.

Com uma comitiva de 20 pessoas, incluindo seu pai e seu irmão, o Vigário segue rio acima, em direção as cachoeiras. Como era verão, a previsão de chegada da comitiva até as cachoeiras era de até três dias. Porém, enquanto partia em fuga, o padre lembrou de cobrar a quem lhe devia algo em cada localidade que passava, o que atrasou e muito sua viagem, levando dezessete dias até a comitiva alcançar Itaboca, hoje Tucuruí.

Durante as viagens pelo Tocantins, era necessário fazer algumas paragens para “calafetar’ os barcos e aportar em terra durante a noite para descansar. Como precaução, o grupo mantinha sentinelas a postos caso irrompesse algum ataque cabano surpresa durante o sono dos demais. E foi assim durante quase toda a viagem, porém, ao alcançarem as cachoeiras, essa medida foi relaxada, pois todos já se imaginavam livres do perigo representado pelo levante popular.

Assim, em uma fatídica noite, encostaram suas canoas e fixaram-se em um local na mata para descansar e passar a noite. Enquanto procurava um lugar para fazer xixi, um dos viajantes, aparentemente, avistou um vulto camuflado atrás de uma moita e  suspeitou se tratar de um cabano. Assim que retornou para junto da comitiva, relatou o fato, porém foi desacreditado, pois seria impossível ter algum cabano por aquelas bandas. Todos resolveram dormir sem escalar ninguém como sentinela.

Como num espetáculo dantesco, inicia-se a segunda batalha do vigário, dessa vez em terra firme, orquestrado pelo próprio Lúcifer. Às 03 horas da manhã, a fúria cabana caiu como uma tempestade sobre a comitiva do Padre, que sem sucesso, ainda tentou alcançar sua espingarda, sucumbindo juntamente com seu pai e irmão, além do Padre Maximiano e mais três indivíduos.

Nas margens da cachoeira de Itaboca, o Vigário de Baião encontrava o seu leito de morte, atingido no peito por uma descarga de espingarda empunhada por uma mulher cabana que, em seus últimos suspiros, ele julgou conhecer. As mortes se seguiram durante a madrugada, e a renda auferida pelo Padre ao longo dos 17 dias de sua jornada foi espoliada.

A notícia da perseguição ao Padre “galego”, assim nomeado pelos cabanos, se espalhou e chegou até a vila de Cametá. O Juiz de Paz de Cametá, Padre Prudêncio José das Mercês Tavares, tomou a iniciativa de formar uma companhia para auxiliar a comitiva do vigário e revidar o ataque dos cabanos, designando como líder da missão, Francisco Maurício Corrêa, apelidado de “Pedrada”, meio irmão de Ângelo Custódio Corrêa e João Augusto Corrêa e, compadre do vigário de Baião.

“Pedrada” organizou um grupo formado por doze homens da localidade de Pacajá e ordenou que o povo de Cametá comparecesse no dia seguinte, ao largo das mercês, apresentando suas armas para o futuro combate. Três pessoas não compareceram ao chamado. Irritado, “pedrada” manda seus homens em busca dos faltosos e os interroga publicamente no largo. Dois deles deixaram de apresentar uma justificativa que pudesse convence-lo. No mesmo instante, ele ordena seus fuzilamentos ali mesmo, em praça pública.

A companhia seguiu rio acima em busca do  grupo cabano e do Padre, que julgavam, esperançosos, ainda estar vivo. Ao chegar na Vila Nova de Santo Antônio do Tocantins, foram recebidos pelo juiz de paz, João Ferreira, sendo informados que havia no sítio Cuxuará um cabano escondido. Diante da informação, parte da comitiva se desloca por terra para o lugar e, em um confronto violento, o cabano é assassinado.

Após recrutarem alguns baionenses e retomarem o percurso rio acima, “Pedrada” avista varias canoas descendo o rio. Supondo tratar-se de um grupo de cabanos, Ele sinalizou como se fizesse parte do movimento e quando as canoas se aproximaram, ali mesmo, no meio do rio, iniciou-se uma terceira batalha, da qual “Pedrada” sai vitorioso, assassinando todos os cabanos, restando apenas os prisioneiros trazidos por eles. Os prisioneiros relataram que faziam parte da comitiva do vigário assassinado e que o movimento tinha planos de invadir Cametá assim que mais cabanos descessem o rio Tocantins.

Ávido por vingar a morte de seu compadre e destruir os planos de invasão dos cabanos, ele elabora um plano astucioso para eliminar o restante do grupo que descia o rio em direção a Cametá. Inicialmente, o plano consistia em esperar na praia e, de posse dos prisioneiros da batalha de Itaboca, fingir que era o grupo cabano que derrotou a comitiva do Padre.

Ao descer o rio e avistar de longe a grande quantidade de canoas do grupo cabano, “Pedrada” fica receoso, decidindo pernoitar em outra praia, porém, enviando um emissário aos cabanos informando que seu grupo havia desmantelado a missão enviada para auxiliar a comitiva do Padre em Itaboca, e que seria mais seguro se juntar ao seu grupo para seguirem juntos para a tomada de Cametá.

O comandante agradeceu o convite e avisou ao emissário que se juntaria ao seu grupo na manhã seguinte, assim que todos estivessem descansados. “Pedrada”, então, se organiza para o combate, determinando que cada um de seus homens já dormisse em sua posição de luta para o dia seguinte. Com os primeiros raios de sol, uma rajada de tiros e gritos rompe o silencio e se dispersa ao longo do rio, anunciando o início da quarta e última batalha, deixando em dúvida qual dos dois grupos sairia derrotado.

Confiando nas palavras do emissário, os cabanos desembarcaram desarmados na praia, aos gritos de “viva a liberdade”. Assim que suas canoas tocaram as areias da praia, “Pedrada” sinalizou aos seus homens que fingiam ainda dormir, e em um só movimento eles retiram suas armas enterradas na areia e disparam contra os 103 cabanos, que tombaram nas águas do rio Tocantins diante daquele ataque surpresa muito bem planejado e executado.

Após vingar a morte do vigário, “Pedrada” seguiu rumo a Cametá e designou outra comitiva para recuperar o corpo do Padre e de seus companheiros de viagem, que foram trasladados até o cemitério da Vila Nova de Santo Antônio do Tocantins. Finalmente, após quatro sangrentas batalhas, o vigário Francisco Gonçalves Martins e Pontes pôde desfrutar de seu descanso eterno, enquanto novas batalhas eram travadas ao longo dos rios e igarapés da Amazônia.

Após a morte do vigário, o juiz de paz de Baião ascendeu de maneira autoritária ao posto de líder da Nova Vila de Santo Antônio do Tocantins, pois, determinava, de maneira arbitrária, quem seria ou não acusado de fazer parte do movimento. Ninguém ousava contrariá-lo, nem mesmo sua madrinha, a mãe do vigário, que ficou aos seus cuidados, e que teve seus bens apreendidos e vendidos por ele.

Muitos anos mais tarde, João Ferreira podia ser visto vagando pelas ruas de Baião e virou uma espécie de zelador do cemitério, cuidava de vários túmulos, em especial de um, ornado com símbolos sacramentais e as cores da coroa Portuguesa. Dizem que ele ficou assim após uma pescaria noturna, quando viu o vigário assassinado pelos cabanos caminhando no rio, trajando um manto branco com três símbolos desenhados no lado esquerdo do peito: um coração, uma ancora e uma cruz de caravaca.

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