Sábado, 25 de Julho de 2026
24°C 32°C
Cametá, PA

A Casa Generosa

Camila Favacho
Por: Camila Favacho
13/07/2024 às 11h12
A Casa Generosa
Fonte: Redes sociais

Às margens do Rio Tocantins, havia um casarão de madeira instalado em um vasto terreno na estrada do Limão. O casarão era popularmente conhecido pelo nome de Generosa e foi construído na antiga propriedade da família Dias da Rocha, uma das mais antigas de Baião, proprietária de terras no Limão e Bella Flor, além de ilhas, castanhais e seringais, e que figuravam também em cargos políticos importantes na cidade, ocupados durante varias gerações.

Quando criança, costumava passar finais de semana na casa dos meus avós, que ficava no Limão. Sempre observei que o casarão passava por longos períodos sem residentes, porém, vez ou outra, uma família recém chegada ou recém casados se serviam de sua generosidade. Meus pais, inclusive, foram um desses casais. O Casarão era uma construção antiga, confeccionado em madeira de lei, com tábuas grossas, assoalhado, varanda na frente, com parapeito, uma escada lateral, janelas grandes, telhado coberto por telhas de barro, cercado por uma fria e densa floresta, morada de muitos macacos cuxiús.

Qualquer pessoa que precisasse ir do centro da cidade até o Limão ou vice-versa, obrigatoriamente passava pela Generosa, sendo um perímetro longo, com mata dos dois lados da estrada e o casarão quase sempre fechado. Dizem os mais velhos que a maior prova de amor dos rapazes era passar pela Generosa para visitar suas namoradas. Imagino quantas histórias de amor foram interrompidas pelo assobio da matinta.

 

Mesmo durante o dia, a estrada, que antigamente era de terra, não facilitava. Bem em frente ao casarão havia um areial difícil de vencer, onde tudo, coincidentemente, acontecia: se a pessoa estava a pé, o chinelo atolava ou arrebentava, se estava de bicicleta, a corrente caia ou o pneu furava. Corajoso, desavisado ou alma penada: quem ousava passar por lá após as seis horas da tarde?

Todos que eu conhecia temiam a Generosa. Durante a minha infância escutei inúmeras histórias de como o lugar e o casarão eram visagentos, principalmente com a chegada da noite. Relatos de perseguições, avistamentos de uma mulher de branco na varanda, correntes arrastando no assoalho, caixões que apareciam e desapareciam na estrada, visagem que pulava na garupa da bicicleta de quem passava, gritos, choros, vento frio, neblina, sopro no cangote... tudo isso adicionado ao fato de que não havia iluminação alguma na estrada (ainda hoje é muito escuro naquele pedaço), realmente era um breu. Confesso que, mesmo caminhando por lá durante o dia, eu também sentia um “frio na espinha”.

Por muitas vezes me perguntei: mas quem era Generosa? Uma Senhora que morava sozinha no casarão e que, generosamente, doava farinha aos mais necessitados? O próprio casarão, que como missão abrigava famílias recém formadas ou recém chegadas que não possuíam moradia própria?

A história da Generosa não é apenas uma história de terror ou, pelo menos, não começou com uma história de terror, mas sim de amor. Uma história há tempos perdida, com encontros e desencontros, de espera, sofrimento e adoecimento mental, encoberta por outras narrativas e que talvez explique todos os fenômenos sobrenaturais que permeiam a história do famoso casarão.

Em Baião, no século XIX, havia uma bela moça chamada Generosa Dias da Rocha, filha única de Estevão Dias da Rocha. Ela e seus pais moravam em uma casa próxima a boca do igarapé do Limão, bem em frente ao rio, de onde ela admirava o por do sol e acompanhava o vai e vem dos barcos a vela e vapores que subiam e desciam o rio. Generosa era professora no Grupo Escolar Thomaz Ribeiro, localizada no então Largo San’ Thiago. Sua família possuía uma imagem de Nossa Senhora do Carmo, adorada por todos os moradores do Limão. Essa imagem foi um presente de uma tia de Generosa, que morava em Portugal.

Nessa época, o Brasil vivia momentos de incertezas com o início da Guerra do Paraguai, e, até nas cidades mais longínquas, o medo de ser recrutado para servir apavorava os moradores, alimentando e acirrando as disputas políticas, com ameaças de recrutamento.

Pedro Lopes Secco era um jovem alferes da Guarda Nacional de Cametá e servia no Batalhão numero 32. Sua família tradicionalmente integrava a Guarda Nacional e era devota de São João Batista, padroeiro de Cametá. Com os recrutamentos para a guerra cada vez mais constantes, ele foi destacado para servir em Baião, sob o comando do temível Coronel Seixas. A bordo do vapor Cametá, Comandante José Basílio Soares, ele e mais dez praças do 11º Batalhão, aportam em Baião.

Durante a apresentação do corpo de infantaria, na praça da cidade, sob o sol escaldante, Pedro conhece Generosa, que pacientemente, organizava seus alunos para assistirem a apresentação. Ela trajava um vestido de estampas bem claras e os cabelos negros, estavam presos em um coque que teimava em desfazer-se.

Ele sorriu discretamente vendo-a se atrapalhar entre controlar as crianças e arrumar os seus cabelos, de relance ela o percebeu, eles selavam ali, os seus destinos. No dia seguinte, Pedro colheu informações sobre a jovem professora e sem temores, dirigiu-se até sua residência.

Estevão, pai de Generosa, viu um magro e alto rapaz adentrar sua propriedade. Vestido com o uniforme da guarda, Pedro se apresentou, falou de sua família e anunciou suas intenções para com Generosa, que aceitou, assim que seus pais lhe abençoaram.

Ávidos para viverem sua história e sob as ameaças da guerra, eles começaram os preparativos para o casamento. O pai de Generosa decidiu presenteá-la com uma casa em um lugar mais próximo à cidade, escolhendo um vasto e bonito terreno, imaginando a família numerosa que sua filha constituiria junto a seu marido. Para o projeto, ele utilizou o que havia de melhor à sua disposição, construindo vários quartos e uma varanda para que ela continuasse contemplando o por do sol.

O casarão ficou pronto e, a partir dali, o casamento aconteceria em breve. Pedro estava em Cametá a serviço do Coronel, quando, atônito, recebe a ordem de convocação para os serviços das armas na Guerra que o Brasil travava com o Paraguai. Sem tempo para despedidas, ele enviou uma carta para Generosa, prometendo voltar assim que cumprisse seus deveres de socorro da pátria. Ela, de vestido pronto, prometeu espera-lo.

Naquela época, a comunicação era difícil e as viagens de barco eram muito demoradas. Os jornais se encarregavam da divulgação das principais notícias do campo de batalha. Trazidas pelos navios que aportavam em Belém, as conversas paralelas se espalhavam pelos portos, bares, mercados, etc.

Um dia, chegou em Baião a notícia de que Pedro fora feito prisioneiro do exército paraguaio. Capturado e enclausurado em uma cela úmida e suja, ele andava de um lado para o outro arrastando pesadas correntes, o que fragilizou ainda mais sua saúde.

Generosa, por sua vez, mesmo mergulhada em dúvidas, continuou esperando. Todo fim de tarde ela sentava-se na beirada da casa de seus pais e observava o por do sol, com a esperança de que um dos barcos trouxesse Pedro de volta. Com o passar do tempo, as pessoas diziam para ela desistir, pois, certamente, seu prometido havia morrido como prisioneiro. A cada ano ela ficava mais triste, assistindo todas as suas amigas se casarem e formarem suas próprias famílias.

Pedro, em seu cárcere, rezava dia e noite a São João Batista, padroeiro dos prisioneiros e protetor dos enfermos, pedindo para retornar e reencontrar Generosa, sonhando com os dias felizes que eles viveriam no casarão. Diversas vezes ele tentou se livrar dos grilhões para conseguir fugir. Em seus constantes delírios de febre, gritava e procurava desesperado por ela, arrastando suas correntes e pedindo que alguém o levasse dali.

Certa noite, em desvario, Pedro ouve o tilintar de uma bicicleta, era seu amigo João, que conseguiu encontra-lo. Eles fogem e percorrem grandes áreas de pântano nas fronteiras do Brasil, até finalmente chegarem ao Hospital de Sangue, lá era um espaço de dor e desespero e sua estrutura não possibilitava tratamentos a longo prazo, então eles partem para o Asilo dos inválidos da Pátria.

Cinco anos se passaram e Generosa, muitas vezes, atordoada pela saudade e vontade de viver a história prometida, fugia para o casarão, vestia-se de noiva e ensaiava o seu casamento junto a imagem de Nossa Senhora do Carmo. Em um de seus ensaios, ela avista Pedro caminhando na estrada em sua direção, naquele dia, quem passou pela estrada ouviu música, risos e vários passos no assoalho, como se um casamento realmente tivesse acontecendo alí.

O lugar, de atmosfera dual, se tornou um portal entre mundos, dimensões criadas pela fé e o desejo de viver a história interrompida, alimentadas a cada vez que novos casais habitavam o casarão. Generosa e Pedro transitam entre os mundos, oscilando entre sonhos e sofrimentos, ora prisioneiros e solitários, ora felizes e em festa.

 

O casarão, nunca foi habitado em vida por Generosa e Pedro.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Ludmila Monteiro Há 2 anos Baião ParáSou de Baião, tenho 19 anos, quando eu era criança a casa generosa ainda existia, hoje em dia só há um lugar com bastante mato na beira da estrada, quando se passa lá pela parte da noite é um pouco escuro e frio. Até hoje aquela parte da entrada do limão é chamada de generosa
DeisyHá 2 anos BelémGente tô aqui pasma nunca tinha escutado essa história tô aqui perplexa???? e atômica , porém ao mesno tempo um turbilhões de emoções me envolvendo com uma triste história de amor
Mostrar mais comentários